Subprefeitura Butantã

Sábado, 8 de Agosto de 2026 | Horário: 08:03
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Servidor da Prefeitura preserva o legado de uma das famílias que impulsionaram a industrialização de São Paulo

Estudioso mantém acervo de peças e livros relacionados à saga industrial dos Matarazzo

“Contar a história dessa família é contar a história de São Paulo.” Assim o jornalista e servidor da Prefeitura Everton Calício, que trabalha há cerca de um ano e meio na Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, define a pesquisa histórica referente a uma das famílias mais tradicionais da história de São Paulo e do Brasil: Matarazzo. Desde a infância, Calício se dedica ao estudo do grupo familiar responsável por construir um dos maiores impérios industriais da cidade de São Paulo e do Brasil. 

Paulistano do Pari, na Zona Norte, Calício, de 40 anos, sempre frequentou a Biblioteca Municipal Adelpha Figueiredo, que ficava próximo à casa de sua família. Aos 11 anos, enquanto muitas crianças buscavam livros de aventura, ele preferia passar o tempo lendo jornais antigos. O interesse pelo jornalismo e pela história acabaria mudando sua trajetória pessoal e profissional.

Em 1996, após assistir uma reportagem exibida na televisão sobre a demolição da Mansão Matarazzo, localizada na Avenida Paulista, surgiu sua curiosidade acerca dos proprietários da mansão. "Eu tinha visto na televisão a cobertura sobre a demolição e fiquei impressionado porque pensei: 'Que história legal!'. Naquela época, eu já gostava de História”, lembra. 

A partir daquele momento, Everton iniciou uma verdadeira investigação. Voltou à biblioteca e mergulhou nos jornais e documentos históricos, em busca de informações. Foi durante essa pesquisa que encontrou o livro “Matarazzo – 100 anos”, obra lançada em 1982 e que consolidou sua admiração pela trajetória da família.

"A minha pesquisa começou aos 11 anos. Fui até a biblioteca para saber mais sobre os Matarazzo por meio de jornais e documentos antigos. Até que encontrei o livro. Ali percebi a grandiosidade da história da família, uma das mais importantes do Brasil", comenta o jornalista, orgulhoso. 

Everton se emociona ao recordar uma das memórias mais marcantes da infância: uma ida ao mercado ao lado da mãe, Cícera, nos anos 90. Enquanto faziam compras, ele pegou um sabonete da marca Francis e, ao ler o verso da embalagem, descobriu que o produto era fabricado pela IRFM (Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo). A partir daquele momento, passou a guardar tudo o que encontrava e que era produzido pela indústria. Com o passar dos anos, a coleção cresceu graças a doações de antigos funcionários do conglomerado e aquisição de peças em leilões de antiguidades.

Um dos itens arrematados é uma lata de biscoitos produzida pela IRFM. “A lata tem um duplo significado para mim, porque foi produzida pela fábrica e tem pequenas imagens dos pontos históricos da capital que eu amo”, disse Everton, encantado com o item arrematado em um leilão.
 

 


 

Construir o acervo pessoal e desvendar a história da família Matarazzo não foi uma tarefa simples. Everton conta que, muitas vezes, os funcionários da IRFM não levavam a curiosidade de um garoto a sério, e era raro conseguir as respostas que tanto procurava. Ao relembrar esse período, a emoção volta à tona ao falar dos professores que incentivaram sua pesquisa por meio dos trabalhos escolares. "Teve um dia que um professor passou um trabalho sobre as principais indústrias do Brasil. Como ele sabia que eu admirava muito a história dos Matarazzo, enviou um ofício para que eu tivesse a chance de conhecer e entrevistar alguém para falar sobre aquele império. Deu certo. Naquele dia fiquei emocionado, não acreditava que estava ali e acabei entrevistando uma funcionária do RH."

Maria Pia

Na vida adulta, a paixão pelos Matarazzo atravessou os muros da infância e ganhou espaço também na universidade. Everton transformou anos de pesquisa em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a ascensão de Maria Pia Matarazzo, neta do fundador, à frente das indústrias durante o período da ditadura militar, em 1977.

Por muito tempo, ele tentou se aproximar de Maria Pia por meio de cartas, mas nunca recebeu resposta. A oportunidade surgiu de forma inesperada durante uma temporada de férias em Santa Rosa de Viterbo, no interior paulista. Disposto a fazer uma última tentativa, enviou um buquê de flores acompanhado de um bilhete no qual contava sobre o trabalho acadêmico dedicado à sua trajetória e o quanto seria especial poder entregar o estudo pessoalmente.

O gesto foi correspondido. Ao receber o trabalho, Maria Pia se emocionou com a dedicação do pesquisador. "Maria Pia se mostrou muito emocionada com a minha dedicação ao escrever sobre a ascensão dela. Ela disse para mim: 'Nossa, que legal que você fez isso. Vou ler com muito carinho'. Depois me deu um retorno dizendo que havia lido e adorado a minha tese", relembra.

Se os objetos contam parte da história dos Matarazzo, as pessoas que cruzaram o caminho de Everton também ajudaram a construir sua trajetória como pesquisador. Entre elas está a historiadora Cristina Carvalho, com quem mantém uma amizade que nasceu justamente por causa do tema de estudo.

Os dois se conheceram quando Everton ainda era adolescente. Na época, ele buscava informações sobre a indústria Matarazzo instalada em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, e encontrou em Cristina uma importante fonte de conhecimento. O contato inicial se transformou em amizade que dura até hoje. 

Em 2012, a parceria abriu uma nova porta. Everton recebeu de Cristina uma proposta para realizar sua primeira exposição sobre os Matarazzo, em comemoração ao centenário da família em São Caetano do Sul. O sucesso o levou à organização de outras duas exposições, uma no Paraná e outra na capital paulista. 

Edifício Matarazzo

Ao falar sobre a capital paulista, Everton volta o olhar para a arquitetura da cidade. Entre os edifícios que mais admira está a atual sede da Prefeitura de São Paulo, no Vale do Anhangabaú. Recentemente o local passou por uma restauração para manter preservada as suas características históricas. O prédio tem o nome do fundador da família: o Conde Matarazzo.

Everton descreve o Edifício Conde Matarazzo, projetado pelo arquiteto Marcello Piacentini, não apenas como um prédio histórico, mas como um símbolo da força do antigo conglomerado industrial. Segundo ele, o edifício abrigava laboratórios, um banco da empresa e o escritório do Conde Francisco Matarazzo. No terraço, também acontecia o tradicional prêmio Agulha de Ouro, uma das principais premiações do Festival da Moda Brasileira. Criada na década de 50, em parceria entre a indústria brasileira e a indústria têxtil francesa Boussac, a Agulha de Ouro reconhecia os principais estilistas e criadores de moda do país.

"O terraço, a partir da década de 1960, começou a ser usado para realizar desfiles de moda. Existia o prêmio Agulha de Ouro, precursor da São Paulo Fashion Week. A indústria Matarazzo investia no setor têxtil, fabricava vestidos, camisas e camisetas. Quando lançava suas coleções, utilizava o terraço para apresentar as novidades à alta sociedade", conta, animado.

O destino reservava uma coincidência capaz de arrancar outro sorriso do pesquisador: a oportunidade de trabalhar como jornalista em um prédio que também carregava a assinatura de Marcello Piacentini: o Palácio dos Bandeirantes, atual sede do Governo do Estado de São Paulo.

A admiração pelo legado da família Matarazzo se mistura ao amor de Everton por São Paulo. As duas paixões dividem espaço dentro de casa, onde um dos cômodos foi transformado em uma biblioteca dedicada à memória da cidade e da família que ajudou a moldar sua história.

Nas estantes estão reunidos mais de mil livros sobre São Paulo, além de uma coleção com mais de 400 objetos, livros, documentos e artigos relacionados aos Matarazzo. Cada peça representa um fragmento da história que ele faz questão de preservar. "Eu sempre digo que não poderia ter nascido em outro lugar. Amo essa cidade, amo ser paulistano e amo contar a história de São Paulo", conclui. 

 


 

História

As Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM) tiveram origem em 1882, quando o imigrante italiano Francesco Matarazzo iniciou, em Sorocaba (SP), um pequeno comércio de secos e molhados. O negócio cresceu e se diversificou, culminando na abertura da primeira fábrica de banha, em 1883. As atividades de Matarazzo, a partir daí, prosperaram, e, em 1900, ele inaugurou o Moinho Matarazzo, em São Paulo. Em 1911, reuniu suas diferentes atividades industriais sob a estrutura das IRFM. 

No auge, entre as décadas de  1940 e 1950, o conglomerado chegou a reunir cerca de 200 fábricas, com aproximadamente 30 mil trabalhadores e produção de alimentos, tecidos, produtos químicos, higiene, embalagens, louças e materiais de construção, tornando-se o maior grupo empresarial da América Latina. 

Ao longo de sua história, as IRFM tiveram três presidentes à frente dos negócios: o fundador, Francesco Matarazzo; seu décimo segundo filho, Francisco Matarazzo Júnior; e a neta do fundador, Maria Pia Matarazzo, última presidente do grupo.
As indústrias foram, ao longo dos anos, gradualmente encerradas em razão das transformações de mercado e também da mudança de foco dos negócios da família.

 

 

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