Secretaria Municipal da Saúde

Sábado, 13 de Junho de 2026 | Horário: 11:00
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Henrique Francé: meio século curando e construindo o sistema público de saúde da capital paulista

Prestes a se aposentar, médico que ajudou a fundar os princípios do SUS na capital fala sobre seu trabalho de mais de 50 anos junto a populações menos favorecidas
A imagem mostra uma atividade de educação em saúde realizada em uma sala de espera de uma unidade de saúde.  Em primeiro plano, um profissional de saúde, vestindo jaleco branco e com um estetoscópio pendurado no pescoço, conversa com um grupo de pacientes. Ele faz um gesto com a mão enquanto parece explicar algum tema ou orientar os presentes.  Sentadas em cadeiras ao longo da parede, estão principalmente mulheres, incluindo pessoas idosas, que acompanham atentamente a atividade. O ambiente é simples e acolhedor, com cartazes informativos, quadro de avisos, relógio e sinalizações relacionadas ao funcionamento do serviço de saúde.  A cena transmite a ideia de cuidado próximo e humanizado, destacando o papel da Atenção Primária na promoção da saúde, na orientação dos usuários e na construção de vínculos entre profissionais e comunidade. A presença de pessoas idosas sugere que a atividade pode estar relacionada a temas como envelhecimento saudável, prevenção de doenças, autocuidado ou acompanhamento de condições crônicas.

Francé durante orientação na região de Cangaíba, onde atua como voluntário desde a década de 70 (Acervo/SMS)

A história do Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo não se limita a leis e diretrizes publicadas em diários oficiais. Ela é personificada na trajetória de servidores que, como Henrique Sebastião Francé, começaram a desenhar o acesso universal à saúde muito antes de ele ser um direito constitucional. Prestes a concluir seu ciclo como servidor municipal no Hospital Dia Penha, com a aposentadoria marcada para o próximo dia 1º de julho, o médico clínico de 74 anos olha para trás e vê uma carreira que se confunde com a própria evolução da assistência pública na capital paulista. 

Natural de Ribeirão Preto, Francé trouxe consigo uma formação humanística que quase o levou ao sacerdócio – ele frequentou o seminário dos 11 aos 15 anos de idade –, mas foi na Escola Paulista de Medicina (EPM) que encontrou sua verdadeira vocação. Formado em 1976, com especialização em clínica médica e medicina preventiva, ele se estabeleceu na zona leste, região onde ajudou a plantar as sementes de um modelo de atendimento que hoje é referência mundial. 

Tudo começou em dezembro de 1975, quando um grupo de estudantes e recém-formados, movidos por um idealismo que desafiava a conjuntura da época, decidiu levar assistência médica para dentro da Paróquia Bom Jesus do Cangaíba, também na zona leste. Francé recorda que o grupo era formado por nomes como Walter Feldman, Nacime Mansur e Gilberto Natalini - este último, motivado por uma promessa feita a um operário que conheceu na prisão política: a de que cuidaria da saúde da população de bairros menos favorecidos, quando deixasse a prisão. 

Naquela época, o cenário era de total desassistência e de uma migração intensa. “A mortalidade materno-infantil era muito grande, não tinha pré-natal, as pessoas nasciam em casa”, conta o médico. Sem a estrutura de uma rede pública consolidada, o grupo praticava educação em saúde com projetores de slides e lençóis servindo de tela às margens do Rio Tietê, em áreas de ocupação onde a presença do Estado era inexistente. 

O choque de realidade vinha no toque e no olhar dos pacientes: “Quantas vezes a pessoa pegava na nossa mão e perguntava: ‘O senhor é doutor médico? Eu nunca vi um’”, conta Francé, acrescentando que, para quebrar as barreiras da distância social, os médicos adotavam a linguagem do sertão e da roça. 

Esse trabalho voluntário, que completou 50 anos em 2025 e ainda conta com a presença ativa de Francé todos os sábados, foi um laboratório real do que viria a ser o SUS em 1990. Na prática na Paróquia de Cangaíba, já se falava em saúde como dever do Estado e direito do cidadão, conceitos que o grupo ajudou a levar para a 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986. Ele não apenas testemunhou essa mudança, mas a operacionalizou na gestão pública, sendo peça fundamental na implementação da experiência de Saúde da Família em São Paulo. 

Ele defende que essa vivência prática na periferia foi o que consolidou sua formação: “A formação médica tem a parte técnica na faculdade. Mas a prática, de atender as pessoas com qualidade, isso conseguimos com esse trabalho. A gente se sentia melhor, no sentido pessoal”. 

Entre as milhares de memórias, o médico guarda com carinho o dia em que, ao atender uma senhora com uma dor lancinante de neuralgia do trigêmeo (condição neurológica crônica que causa dores faciais extremamente intensas) na casa da paciente, foi recebido como uma resposta divina. “Quando cheguei na casa dela, ela chorava e rezava. Fizemos o diagnóstico, que era ouvir a queixa e arrumar o remédio. E ela comentou: ‘Eu estava rezando tanto e pedia para aparecer um anjo’. Claro que é uma visão religiosa. Mas o fato de eu estar lá naquela hora e poder ajudar, isso me marcou muito. No fim, eu consegui o remédio e ela melhorou.” 

Servidor público desde 1989, o médico pretende aproveitar a aposentadoria ao lado da esposa, Tatiana, mas sem deixar o Cangaíba: “Tenho a experiência de um grupo de amigos que se formaram comigo. Alguns pararam mesmo, foram fazer outra coisa da vida. Outros saíram da assistência médica para trabalhar na gestão. Eu pretendo, por ora, descansar, me cuidar, mas continuar com o trabalho voluntário. Mas não vou deixar nunca de ser médico”.

Q+
Fora do ambiente clínico e da correria dos atendimentos, o médico cultiva uma vida de hábitos simples. Morador do Tatuapé e corintiano fiel, ele encontra no futebol e nas caminhadas pelo bairro o equilíbrio necessário para a rotina da medicina. Leitor assíduo de temas que extrapolam a ciência médica, carrega consigo o espírito de quem nunca parou de buscar novos ângulos de visão sobre o mundo. 

Essa curiosidade o levou, em 1993, a um dos maiores desafios de sua vida pessoal: uma caminhada pela Cordilheira do Himalaia, no Nepal. Acompanhando um amigo alpinista, o médico que se descreve como “um pouco medroso” superou os próprios limites ao subir até o campo-base do Everest. Da imensidão das montanhas mais altas do mundo à simplicidade dos consultórios na paróquia da zona leste, a trajetória de Henrique Francé permanece guiada pela mesma bússola: a convicção de que o cuidado humano é o que realmente transforma as estatísticas em histórias de vida e dignidade

 

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